Quando o assunto são boas câmeras em smartphones a Nokia tem uma
longa história. Lembro-me bem do frenesi causado pela impressionante
(para a época) câmera de 5 MP do N95, da expectativa pelo N8 com sua câmera de 12 MP e do espanto coletivo quando o 808 PureView, com sua câmera de 41 MP, foi lançado no início de 2012.
A Nokia reaproveitou o termo “PureView” quando lançou o Lumia 920,
apresentando-o como um pacote de tecnologias para melhores fotos, entre
elas um sensor de câmera maior capaz de captar mais luz e estabilização
óptica de imagem, em vez de uma referência a uma resolução específica
do sensor. Ainda assim, um PureView de 8 MP parecia pouco depois que já
havíamos sentido o gostinho de algo ainda melhor.
Por isso o Lumia 1020 começou a chamar a atenção logo que os
primeiros rumores sobre o projeto começaram a circular. Um Windows Phone
com um sensor de imagem de 41 MP parecia combinar o melhor de dois
mundos: a qualidade de imagem do 808 PureView com o sistema operacional e
hardware modernos dos Lumia. Uma máquina capaz de não só fazer boas
imagens, como também de rodar todos aqueles apps e serviços com os quais
nos acostumamos no dia-a-dia.
E não é que a mistura deu certo? Como smartphone o Lumia 1020 é
bastante capaz, e como câmera faz fotos excelentes, dando ao usuário uma
flexibilidade nunca antes vista em um aparelho tão compacto.
Design e hardware
O Lumia 1020 lembra muito o 920, um retângulo com laterais
arredondadas e corpo sólido em policarbonato (plástico). O modelo que
testamos, preto, tem um acabamento fosco que ajuda a esconder marcas de
dedos, enquanto os modelos branco e amarelo tem acabamento brilhante. A
traseira é fixa, então não é possível mudar a cor do aparelho trocando a
tampa, como no Lumia 820.
No topo ficam o slot para um SIM Card (micro SIM) e o conector para
fones de ouvido, e embaixo os alto-falantes, um slot por onde você pode
passar uma pulseira (como em uma câmera) e o conector micro USB.
Todos os botões ficam na lateral direita: controle de volume no topo,
um botão liga/desliga centralizado e um botão para a câmera no canto
inferior. O Lumia 1020 não tem um slot para cartões de memória, nem há
uma forma de conectá-lo diretamente a uma TV de alta-definição.
A principal diferença no design do Lumia 1020 em relação ao 920 está
na traseira: o imenso módulo circular da câmera, que abriga a lente
Carl-Zeiss, sensor, flash Xenon e LED para foco ou iluminação auxiliar
durante filmagens.

É impossível não notar o módulo da câmera na traseira do Lumia 1020
Nesse ponto o aparelho chega a 1,4 cm de espessura, o que impressiona
considerando que a maioria dos smartphones top no mercado está abaixo
dos 8 mm, mas não chega a incomodar no bolso. Veja o lado bom: é muito
menos do que os 2,5 cm do Galaxy S4 Zoom (com
a lente retraída). E no geral o Lumia 1020 é mais leve que o Lumia 920
(158 contra 185 gramas) e, descontando o módulo da câmera, mais fino
(10,4 contra 10,7 mm).
Quando publicamos o review norte-americano do Lumia 1020 alguns leitores reagiram fortemente quando o autor classificou o hardware como “datado”.
Mas é verdade: o processador é um Qualcomm Snapdragon MSM8960 dual-core
de 1,5 GHz, o mesmo de modelos anteriores como o Lumia 820 e 920, e que
já era usado no Motorola RAZR HD,
um smartphone Android que chegou às lojas no Brasil em setembro de
2012. E telas HD (1280 x 768 pixels) deixaram de ser novidade mesmo
entre os Windows Phone com o Lumia 920, lançado no exterior em novembro
do ano passado. Felizmente nada disso prejudica o desempenho, como
veremos adiante.

Perfil do Lumia 1020. Se não considerarmos a câmera, ele é mais fino que o Lumia 920
O Lumia 1020 tem 32 GB de memória interna (cerca de 29 GB
disponíveis), 2 GB de RAM, NFC (para facilitar a troca de arquivos entre
aparelhos e comunicação com acessórios), suporte a redes 4G e 3G e a
redes Wi-Fi em todos os principais padrões do mercado: 802.11 a/b/g e n.
Também há Rádio FM, o que é algo raro entre os smartphones topo de
linha.
Software
O Lumia 1020 roda o sistema operacional Windows Phone 8 já com a atualização Lumia Amber,
que começou a ser distribuída aos outros aparelhos da empresa em agosto
deste ano. Se você já usou um smartphone com o Windows Phone 8, ou
mesmo um PC com o Windows 8, estará em casa: a interface baseada em
blocos dinâmicos é exatamente a mesma.
O sistema inclui uma versão “de bolso” dos aplicativos do Office
(Word, Excel, PowerPoint, OneNote) e tem excelente integração com
serviços da Microsoft como o SkyDrive, Xbox Live e Xbox Music. A Nokia
adiciona alguns apps e serviços extras, como o HERE Maps e HERE Drive+
(mapas e navegação), Nokia Camera, o serviço de música online Nokia
Música e o Nokia Care, que tem um Guia do Usuário e dicas de como usar o
aparelho. Também há o Data Sense, que permite monitorar o uso do plano
de dados.
Um recurso interessante que foi adicionado ao sistema é a Glance Screen.
Mesmo com a tela desligada o aparelho pode exibir um relógio (em cinza)
sobre fundo preto quando você o tira do bolso ou paira a mão sobre a
tela. Como a tela é AMOLED e só as partes “acesas” consomem energia, o
consumo nesse modo é menor do que se você acordasse o aparelho inteiro
só para ver que horas são. É um conceito que foi importado de um outro
aparelho da Nokia, o N9. Outra idéia reaproveitada da mesma fonte é dar
dois toques na tela para acordar o smartphone, em vez de pressionar o
botão na lateral direita.
Infelizmente a Glance Screen mostra praticamente só o relógio, um
ícone se o aparelho estiver carregando e outro se estiver no modo
silecioso. Seria interessante se a Nokia aproveitasse as idéias da
Motorola no Moto X,
mostrando também notificações pendentes e permitindo até que você
interaja de forma limitada com elas sem ter se acordar o smartphone.
Vale mencionar que a plataforma Windows Phone vem amadurecendo, e o
número de aplicativos, especialmente o dos aplicativos mais populares
entre os usuários, vem crescendo. Ainda não dá para comparar com o
Android ou mesmo o iOS, especialmente em categorias como jogos, mas você
terá de abrir mão de pouca coisa na plataforma da Microsoft.
Até mesmo o Instagram, que era a principal ausência até pouco tempo
atrás, já não é mais problema: há um cliente não oficial e gratuito
chamado6Tag que
tem todos os recursos dos clientes oficiais para o iOS e Android,
permitindo ver e postar fotos (com os mesmos filtros) e vídeos, além de
curtir e comentar imagens. E um cliente oficial deve ser lançado em
breve, junto com clientes para outros serviços como o Vine e Flipboard.
Um bug irritante me incomodou durante o período que passei com o
Lumia 1020: por duas vezes o corretor automático do teclado simplesmente
decidiu ignorar minhas preferências de idioma (Português) e reverter
para o inglês. Para voltar ao Português tive de mudar o idioma do
aparelho para qualquer outro em região+idioma, na tela de Configurações, reiniciar o smartphone, redefinir o idioma para o português e reiniciar novamente.
Câmera
A câmera é o principal destaque do Lumia 1020, tanto pela resolução
(41 MP) e tamanho (1/1.5”) do sensor, muito maiores que a média dos
smartphones e mesmo câmeras domésticas, quanto pela qualidade das
imagens e flexibilidade oferecida ao fotógrafo pelo conjunto de
controles manuais no aplicativo Nokia Camera.
Vamos começar pela resolução: devido a diferenças no formato do
sensor (circular) e das fotos (retangulares), a resolução real das
imagens é um pouco menor que os 41 MP. Fotos na proporção 16:9 (“wide”)
tem resolução de 7712 x 4352 pixels, cerca de 34 MP. Já as feitas na
proporção 4:3 tem resolução de 7136 x 5360 pixels, cerca de 38 MP.
Ainda assim é muita informação. Os arquivos JPEG tem entre 8 e 12 MB
cada, dependendo da imagem. Para facilitar o compartilhamento, por
padrão o Lumia 1020 cria automaticamente uma cópia de cada imagem
redimensionada para 5 MP com um tamanho muito mais razoável, entre 1 e 2
MB. Sempre que você compartilhar uma imagem usando o aparelho, seja via
e-mail, Twitter, Instagram ou Facebook, estará usando a versão de 5 MP.
As imagens originais só são acessíveis quando você pluga o smartphone a
um PC.
A altíssima resolução permite alguns truques bem legais. Um deles é a
possibilidade de reenquadrar a cena usando o aplicativo Nokia Camera.
Basicamente ele faz um recorte da imagem na proporção escolhida (como
16:9, 4:3 ou 1:1) e gera um arquivo de 5 MP com o resultado.
Isso torna possível fazer uma foto rapidamente sem se preocupar muito
com os detalhes, e enquadrar a cena da forma que achar melhor depois.
Ou então produzir uma nova imagem focando em um detalhe que passou
desapercebido na hora do clique, ou que você deseja destacar. Graças à
resolução, mesmo os recortes podem produzir fotos impressas de alta
qualidade. A imagem abaixo (clique para ampliar) é um recorte em 5 MP de
um original de 34 MP.

Recorte em 5 MP de uma imagem de 34 MP feita com o Lumia 1020
Clique para ampliar, ou baixe o arquivo original (cuidado, são 10 MB!)
Os controles manuais oferecem ainda mais flexibilidade. É possível
definir o comportamento do flash, balanço de branco, foco, ISO (100 a
4000), velocidade do obturador (1/16000 a 4 segundos) e compensar a
exposição (-3.0 a +3.0). Quem conhece o significado de cada um destes
parâmetros poderá se divertir muito e obter fotos que seriam impossíveis
com outros aparelhos, como belas cenas noturnas.
Por exemplo, a foto abaixo foi feita com ISO 100, exposição de 2
segundos e balanço de branco manual (fluorescente). O smartphone foi
segurado nas mãos, e meus cotovelos estavam apoiados em uma mureta.
Mesmo com o maior tempo de exposição e pouca luz, o estabilizador óptico
ajudou a evitar que a foto saísse tremida.

Foto noturna feita com o Lumia 1020. Clique para ampliar
Compare com a mesma cena fotografada por um Samsung Galaxy S4.

Foto noturna feita com o Galaxy S4. Clique para ampliar
Mas é claro que você não precisa entender de fotografia para fazer
boas fotos com o Lumia 1020. Mesmo no modo completamente automático ele é
capaz de produzir imagens como estas:

Foto feita com o Nokia Lumia 1020. Clique para ampliar (cuidado, são 9,2 MB!)

Foto feita com o Nokia Lumia 1020. Clique para ampliar (cuidado, são 8,7 MB!)
Também há um modo para fotos panorâmicas, que produz imagens em alta
resolução, ao contrário da maioria dos aparelhos do mercado. A foto
abaixo, por exemplo, tem 6412 x 1614 pixels. Fazer uma panorâmica é
fácil, basta bater a primeira foto e mover o smartphone seguindo as
indicações na tela. Mas mesmo com uma mão firme podem haver problemas
com a “costura” da imagem em objetos distantes no horizonte (veja o mar
próximo ao centro da imagem, à esquerda do Pão de Açúcar).

Foto panorâmica feita com o Lumia 1020. Clique para ampliar (2,8 MB)
O Lumia 1020 também tem todos os recursos do aplicativo Smart Camera encontrado
em aparelhos como o 920 e o 820. Entre eles a capacidade de capturar e
manipular uma sequência de imagens, produzindo uma animação, removendo
objetos ou pessoas que passaram no fundo ou combinando múltiplos quadros
em uma imagem, gerando um “rastro” de movimento.
Na hora de gravar vídeo as opções são mais modestas: é possível
gravar em Full HD (1920 x 1080 pixels) ou HD (1280 x 720 pixels) a 30,
25 ou 24 quadros por segundo. Não há nenhum dos recursos de gravação em
câmera lenta ou vídeo em HDR, que estão se tornando comuns em outros
aparelhos.
Desempenho e Autonomia de Bateria
Como tem o mesmo processador, o desempenho do Lumia 1020 é idêntico
ao do 820 ou 920. Não tivemos problemas no dia-a-dia, seja ao reproduzir
vídeos em alta-definição, navegar na web ou jogar games mais
sofisticados como Asphalt 7 e Modern Combat 4. O sistema operacional
Windows Phone 8 é bastante otimizado para o hardware e roda com
excelente fluidez, sem engasgos em animações ou pausas ao alternar entre
aplicativos.
O único momento onde desejei um pouco mais de desempenho foi
justamente na hora de fazer fotos em alta resolução usando o app Nokia
Camera. O aparelho leva cerca de três segundos para salvar uma imagem
antes de ficar pronto para outra.
Quanto testei o Lumia 820, fiquei extremamente desapontado com a
autonomia de bateria. Fico feliz em dizer que o Lumia 1020, apesar da
tela maior, melhorou muito o resultado, mas ainda assim não é o
bastante: terminei um dia de uso típico, cerca de 13 horas fora da
tomada, com 5% de carga restante. Um Sony Xperia ZQ chega
à mesma marca com 15% de carga restante, um Samsung Galaxy S4 com 19%, e
um Motorola Moto X com 20%. Já em nosso teste de reprodução de vídeo,
feito com o brilho da tela no nível médio e o aparelho em modo avião, o
Lumia 1020 chegou à merca de 10 horas.

A autonomia de bateria do Lumia 1020 deixou a desejar em relação aos concorrentes
A autonomia será muito menor se você fizer uso intenso da câmera, e
quem se empolgar com os cliques pode facilmente consumir metade da carga
em cerca de duas horas. Mas a Nokia dá uma forcinha para os fotógrafos
mais ávidos: um acessório chamado Camera Grip se encaixa ao
aparelho e dá a ele a “pegada” de uma câmera tradicional, com encaixe
para um tripé e uma bateria extra de 1020 mAh (metade da capacidade da
bateria interna) embutida na empunhadura.
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| Camera Grip melhora a ergonomia e traz bateria extra |
Não se assuste se a tela esquentar consideravelmente após uma longa
sessão de fotos, isso é normal. A temperatura nunca chega a um ponto
perigoso, mas é o suficiente para assustar um usuário desavisado.
Veredito
Quem gosta de fotografar tem no Lumia 1020 um prato cheio: de forma
alguma ele irá substituir uma DSLR, e nem deve ser visto como tal, mas
você não irá se arrepender se deixar sua câmera compacta em casa. E pode
até se pegar observando seus arredores com outros olhos em busca de
boas fotos.
Como smartphone ele é bastante capaz, mas não se destaca muito em
relação aos outros Windows Phone: a plataforma é bastante homogênea, e a
diferença na experiência de uso entre ele e um aparelho mais barato
como o Lumia 820 é mínima. Ainda assim, é mais do que suficiente para
satisfazer o usuário típico em todas as suas necessidades do dia-a-dia.