As rotas de cabos submarinos que conectam os brasileiros a outros
internautas no exterior estão na mira do governo brasileiro após as
denúncias de Edward Snowden, ex-técnico de informática da agência
nacional de segurança americana (NSA, na sigla em inglês), sobre a
espionagem do governo dos Estados Unidos a milhões de telefonemas e
e-mails de brasileiros. Atualmente, cerca de 90% do tráfego de dados
gerado nas conexões de internet brasileiras passa pelos Estados Unidos, o
que torna a maior parte das chamadas de voz, e-mails e bate-papos
vulneráveis à interceptação pela NSA.
“Os cabos passam pelos EUA e, para fazer a conexão com o Japão ou com
a Europa, a gente tem de passar por lá”, explica Artur Coimbra, diretor
de banda larga do Ministério das Comunicações. As informações
transmitidas por meio da internet no Brasil são transmitidas para o
resto do mundo por meio de seis sistemas de cabos de fibra óptica.
Segundo o iG
apurou, quatro deles fazem conexão com os Estados Unidos (veja o infográfico)
, o que coloca os EUA como principal rota das informações enviadas por
meio da internet brasileira, mesmo que não seja seu destino final.
Na prática, quando um brasileiro inicia seu
navegador de internet e digita o endereço de um site que está hospedado
em um servidor na Europa ou na Ásia, o computador empacota a solicitação
e a despacha pela rede, com o endereço do servidor de destino. As
informações são transmitidas por meio da conexão de banda larga públicas
ou privadas e, ao chegar às fronteiras do País, seguem seu caminho por
meio de cabos submarinos. Nas “estradas” da internet, o pacote de dados
percorre milhares de quilômetros até chegar ao servidor de destino.
Depois de processar a solicitação, o servidor gera um novo pacote de
dados com as informações solicitadas pelo usuário e o despacha de volta
pela internet.
Como não existem cabos submarinos para ligar
todos os países, os pacotes de dados passam por grandes pontos de troca
de tráfego (PTTs), data centers onde redes de grande porte de empresas
de internet, provedores e operadoras se encontram. “É como numa
rodoviária, onde diversas empresas de ônibus chegam para pegar e deixar
passageiros”, compara Demi Getschko, diretor-presidente do Núcleo de
Informação e Coordenação do Ponto BR, órgão que implementa as decisões e
projetos do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI).
Os pacotes de dados passam por PTTs de grande porte, como
o NAP das Américas localizado em Miami (EUA). Além dele, existem outros
13 PTTs para troca de tráfego internacional no mundo, nenhum deles no
Brasil. Nestes data centers, grandes roteadores recebem informações
trazidas por cabos submarinos, verificam o destino e redirecionam os
pacotes de dados para outros cabos que os levem até seu destino final.
“Os EUA são um ponto de concentração, porque recebem muito tráfego e
geram muito tráfego de internet”, diz Getschko. “A maior parte do
tráfego de dados internacional acaba passando pelos EUA em algum
momento.”
Denúncias geram alerta
Antes uma questão apenas de logística, o controle sobre
os cabos submarinos que conectam as redes de internet em todo o mundo se
tornou questão de segurança nacional. Documentos da NSA sobre o
programa de espionagem americano obtidos pelo jornal "O Globo" apontam
que a agência utiliza um programa chamado Fairview para coletar dados em
redes de comunicação em todo o mundo, por meio de uma parceria com uma
grande operadora americana. “Na hora que o tráfego passa pelos
roteadores nos PTTs, alguém pode olhar esses pacotes de dados”, explica
Getschko. As leis americanas obrigam
empresas baseadas nos EUA, sejam elas de serviço de internet ou operadoras, a colaborar em ações de espionagem.
No total, o Brasil possui uma capacidade de banda
contratada para transmissão de dados por meio de cabos submarinos de 3,7
Tbps (terabits por segundo), de acordo com a consultoria TeleGeography.
Para efeito de comparação, essa banda permitiria que o Brasil
transmitisse a mesma quantidade de dados armazenados em 657 DVDs a cada
segundo para os EUA. A capacidade de transmissão de dados contratada, no
entanto, não é completamente utilizada. “Em 2013, as rotas entre o
Brasil e EUA transmitiram 680 Gb por segundo, o que equivale a
transmissão do conteúdo de 144 DVDs a cada segundo para os EUA a partir
do Brasil”, diz Greg Brian, analista sênior da TeleGeography.
Logo após as denúncias de Snowden, o governo
brasileiro anunciou a formação de um grupo técnico para investigar as
denúncias de espionagem e a Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) afirmou que investigaria se as operadoras brasileiras violaram o
sigilo dos dados e ligações telefônicas e se houve participação de
empresas brasileiras no esquema de espionagem do governo dos EUA. “Só
interceptamos a comunicação se há autorização judicial da Justiça
brasileira”, diz Alex Castro, diretor da Associação Brasileira de
Telecomunicações (Telebrasil). Além disso, o governo brasileiro pediu
mais rapidez na análise de leis que garantam a privacidade dos dados de
brasileiros, como o Marco Civil da internet
e a Lei de Proteção de Dados Pessoais
.
Construção de novos cabos submarinos pode ajudar Brasil a evitar exposição desnecessária de informações nos EUA
Defesa anda devagar
Poucas ações novas, no entanto, fazem parte da
estratégia do governo para proteger e-mails, conversas de chat e outras
informações das ações de espionagem da NSA. O principal projeto em
discussão é a construção de dois cabos submarinos: um deve conectar o
Brasil diretamente à Europa e outro deve ligar o Brasil à África. Dessas
localidades, os pacotes de dados com origem no Brasil poderão seguir
rotas para países da Europa, Oriente Médio, Ásia e Oceania, sem passar
pelos EUA. Atualmente, o Brasil possui apenas um cabo submarino
conectado à Europa por meio de Portugal, o Atlantis-2, mas ele é usado
somente para transporte de comunicações por voz, por ter capacidade
limitada.
Os projetos já estavam em andamento antes das
denúncias de Snowden. “Estamos há mais de um ano fazendo estudos sobre
estes cabos submarinos”, diz Caio Cezar Bonilha Rodrigues, presidente da
Telebras.
Após as denúncias, no entanto, a estatal
acelerou o processo e deve entregar em breve um projeto de construção
dos cabos, com o estudo sobre possíveis rotas e custos envolvidos, ao
Ministério das Comunicações. “Tão logo o governo haja uma definição e o
orçamento associado, o cabo levará 18 meses para ser implementado”, diz
Rodrigues. O novo cabo para a Europa deve sair de Fortaleza (CE), cidade
com maior densidade de cabos submarinos no Brasil, passar por Fernando
de Noronha e seguir até Portugal ou Espanha.
No caso da conexão submarina entre o Brasil e a África, o
governo brasileiro não terá que fazer grandes investimentos. O projeto é
uma iniciativa liderada pelo consórcio de operadoras Angola Cable.
“Somos parceiros apenas para construir o ponto de aterragem do cabo em
Fortaleza”, diz Rodrigues, da Telebras. O cabo, que deve ter 6,5 mil
quilômetros, ligará o Brasil à Luanda, na Angola. A previsão é de que o
cabo esteja pronto para operar no quarto trimestre de 2014.
A construção de novos cabos submarinos, contudo, depende
de altos investimentos. De acordo com a TeleGeographic, a construção de
um sistema de cabos submarinos entre o Brasil e os EUA, por exemplo,
custa cerca de R$ 690 milhões (US$ 300 milhões); um sistema que conecte o
País com a Europa, por meio do Oceano Atlântico, pode sair ainda mais
caro. A Telebras procura empresas brasileiras, europeias e de outros
países sul-americanos que tenham interesse em investir nos novos cabos
submarinos. “A Telebras entrará com um investimento de R$ 800 milhões e a
outra parte será custeada por meio de parcerias com empresas”, diz
Coimbra.
Em entrevista exclusiva
ao iG
, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, revelou que o governo
brasileiro já acertou com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social) uma linha de financiamento com juros de 3% ao ano
para empresas interessadas em investir nos novos cabos submarinos. A
linha de crédito, que segundo o ministro ficará entre R$ 3 bilhões e R$ 4
bilhões, será oferecida por meio do Programa de Sustentação do
Investimento (PSI). "Este é um bom atrativo que o governo oferece aos
interessados", diz Bernardo.
Além da iniciativa do governo brasileiro, não há nenhum
outro cabo planejado para conectar o Brasil à Europa nos próximos anos.
No caso da conexão entre o Brasil e a África, há outros dois cabos
submarinos planejados até o momento, com início da operação previsto
para 2015. Contudo, nenhum deles está em construção. “Não há nenhuma
garantia de que qualquer um deles saia do papel, mas pelo menos um deles
deve ser construído”, diz Brian, da TeleGeography. Cada novo cabo
submarino deve ter capacidade para transmitir dados a uma velocidade
entre 16 Tbps e 32 Tbps.
Chegada de redes de fibra óptica às fronteiras emperra projeto do anel para conectar redes de países da América do Sul
Anel óptico
Além dos quatro cabos submarinos que ligam o
Brasil aos EUA e do antigo cabo de conexão com a Europa, há um sexto
cabo submarino em operação. De menor porte, o Unisur facilita a
comunicação do Brasil com a Argentina e o Uruguai, mas não se conecta a
outros países da América Latina. Com isso, se um internauta do Chile
quer acessar um site hospedado no Brasil, o pacote de dados com sua
solicitação “viaja” para algum PTT localizado nos EUA antes de chegar ao
Brasil e vice-versa. É o chamado "efeito trombone".
"Existem algumas conexões terrestres nas
fronteiras dos países da América do Sul, mas temos pouca visibilidade
desses sistemas. Na prática, a maior parte do tráfego de internet desses
países é roteada por meio dos Estados Unidos, apesar de haver algumas
conexões físicas diretas", diz Cody Williams, analista da TeleGeography.
A distância pode se tornar mais curta e a transmissão dos dados mais
barata quando o projeto do anel óptico, um compromisso firmado pelos
países-membros da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), sair do
papel. Anunciado no ano passado, ele prevê a conexão, nas fronteiras,
das redes de fibra óptica dos países da América do Sul.
O projeto até agora só resultou na conexão
direta entre o Brasil e o Uruguai, realizada em maio de 2013. Ele
depende de que as operadoras locais levem a rede de fibra óptica até as
fronteiras, para que a conexão seja concluída. "A Telebras está
investindo para ampliar a rede na região Norte, mas levar a rede para a
região da Amazônia é extremamente difícil. É um projeto de longo prazo",
diz Rodrigues. Os investimentos para expandir a infraestrutura de fibra
óptica da Telebras são parte do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL).
Segundo o Ministério das Comunicações, a rede brasileira
já está pronta na fronteira com a Argentina e com o Paraguai e a conexão
depende do término das obras nos países vizinhos. No caso da Bolívia,
Venezuela e Peru, a rede de fibra óptica ainda não chegou à fronteira
também do lado brasileiro. "Feitas as conexões físicas, deverão ser
estabelecidos acordos de interconexão entre todos os países para que
esse arranjo de redes funcione em anel", diz Coimbra.
PTTs nacionais
O "efeito trombone" não é um fenômeno apenas da América
do Sul, mas acontece inclusive internamente no Brasil. Uma estimativa do
Ministério das Comunicações aponta que até 50% do tráfego de internet
que segue para os pontos de troca de tráfego (PTTs) nos EUA seja
destinado ao próprio Brasil. Uma parte deste tráfego, porém, precisa
realmente sair: as solicitações são enviadas a serviços baseados em web
de empresas americanas, como Google e Facebook, mas também a sites de
empresas brasileiras hospedados em servidores nos EUA devido ao custo
baixo. Sem necessidade, parte dessas informações ficam expostas à
possíveis ações de espionagem do governo dos EUA.
Demi Getschko: operadoras podem trocar tráfego de internet em seus próprios data centers
"A maioria das operadoras está fora dos pontos
de troca de tráfego brasileiros. Elas não têm interesse em participar,
porque quanto mais tráfego elas transmitirem, mais elas cobram", diz
Rogério Santanna, ex-secretário de logística e tecnologia da informação
do Ministério do Planejamento e ex-presidente da Telebras. Atualmente, o
Brasil tem 22 pontos de troca de tráfego (PTTs) neutros, ou seja, que
são gerenciados pelo Comitê Gestor da Internet (CGI). Contudo, as
grandes operadoras brasileiras, salvo algumas exceções como a GVT,
trocam pouco tráfego nesses data centers.
"Se a troca ocorre no PTT, o custo é zero. No
modelo das operadoras, levar o tráfego de dados até algum lugar para
fazer a interconexão também gera receita", diz Getschko, do CGI.
Contudo, apesar da resistência das operadoras em participar dos PTTs
"neutros", isso não quer dizer que elas não façam a troca de tráfego no
Brasil. Muitas operadoras mantêm acordos entre si, por questões de
logística. " A Vivo pode ter um acordo com a Oi para trocar tráfego
entre as duas redes em um data center da Oi", diz Getschko. De acordo
com a Telebrasil, as operadoras mantém mais de 100 pontos de
interconexão de redes no País, fora dos PTTs neutros.
Para garantir que as informações com origem e
destino no País não sejam expostas sem necessidade, o Ministério das
Comunicações já pediu às operadoras brasileiras que façam a troca de
tráfego desses pacotes em PTTs nacionais. "Já fizemos uma reunião e
estamos esperando a resposta das operadoras. Em caso negativo, há a
possibilidade de a Anatel determinar isso por meio de uma nova
regulamentação", diz Coimbra. De acordo com o Plano Geral de Metas de
Competição, publicado pela Anatel em 2012 e ainda em fase de
implementação, empresas de telecomunicações que têm poder de mercado
significativo devem fazer a troca de tráfego em PTTs localizados no
Brasil.
Via: IG
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