Um usuário desavisado que acesse o site pela primeira vez pode
até pensar que está utilizando algum novo produto do Google. Afinal, a
paleta de cores do logo é a mesma, assim como o design minimalista, com a
caixa de busca no centro e dois botões, um de busca e o famoso “estou
com sorte”. Mas as semelhanças acabam por aí. Qualquer busca no Grams, o
Google das drogas, abre as portas para um universo de substâncias
ilegais, armas, documentos falsos e até veneno.
O Grams (bit.ly/info-grams) foi lançado em abril passado
com um objetivo simples, mas ousado: unificar a busca por produtos nos
diversos mercados negros que operam na Deep Web, a rede de servidores
não indexada pelo Google e acessível apenas pelo navegador Tor. “Eu
queria ajudar as pessoas a encontrar o que elas desejavam na darknet e
descobrir quais vendedores são confiáveis”, diz Gramsadmin, pseudônimo
do fundador do Grams, em uma de suas publicações no fórum do site.
Contatado pela reportagem da INFO, ele se recusou a dar entrevista.
Antes, com o monopólio do Silk Road, o maior marketplace ilegal até então, que chegou a movimentar 1,2
bilhão de dólares, os usuários sabiam onde buscar esses itens
proibidos. Mas depois do fechamento do site pelo FBI, em outubro de
2013, as coisas mudaram. “Hoje há mais mercados ativos do que antes da
queda do Silk Road”, disse a INFO o professor Nicolas Christin,
especialista em crimes cibernéticos da Universidade Carnegie Mellon, dos
Estados Unidos. “Não sabemos se a razão foi o fim do site ou o fato de
as pessoas perceberem que é possível ganhar muito dinheiro com isso.”
Apesar de não revelar sua identidade, Gramsadmin possui
ótimo conhecimento técnico e de programação, como mostram os sistemas
que implementou no site. Começando pelo motor de busca em si, que reúne
uma dezena de marketplaces ilegais, como o Agora, o 1776 e o Andromeda,
todos com centenas de drogas ilegais em suas listagens, como cocaína,
ecstasy e maconha. Quando o usuário busca por alguma dessas drogas,
recebe de volta uma lista de resultados com o item procurado e sua
disponibilidade em cada mercado.
“Estou trabalhando no algoritmo, que funciona como o do
Google, com um sistema de pontuação baseado no tempo que o item se
tornou disponível, nas vendas que foram feitas e nas avaliações
positivas que o vendedor possui. Assim, os melhores resultados aparecem
primeiro”, diz Gramsadmin, que trabalha sozinho no código, até 14 horas
diárias.
As listagens têm uma breve descrição do produto, foto,
nome do vendedor, seu país de origem e também o valor do item em
bitcoin, moeda criptográfica usada nesse tipo de transação. Para fechar o
negócio, é necessário que o usuário acesse o endereço original da
oferta.
A partir desse ponto, o processo segue o padrão do
mercado negro online e ocorre entre o comprador e seu fornecedor. O
próprio traficante faz o envio pelo correio em pacotes disfarçados e
protegidos por embalagens isolantes.
Com o mercado mais pulverizado, aumentou a quantidade de
vendedores falsos, os chamados scammers. “Motores de busca são bons para
achar informações difíceis”, diz Christin. “Mas as pessoas querem mais.
Querem saber quem vende qual produto e quais vendedores têm boa
reputação.”
Para dar essas respostas, o Grams estreou um sistema de
avaliação de traficantes. Quando um vendedor aparece nas listas, é
possível acessar seu perfil. Ali são mostradas resenhas de usuários
feitas no sistema do buscador. Há também integração com o popular fórum
Reddit, em que consumidores escrevem críticas e denunciam golpistas.
Existem outras inovações na busca do Grams. Uma das
ferramentas permite, por exemplo, filtrar a busca por país. A oferta no
Brasil ainda é limitada, mas mostra alguns resultados perturbadores. São
vendidos remédios controlados, como o tranquilizante Rivotril, e até
Ricina, substância tóxica derivada da mamona e bem conhecida pelos fãs
do seriado Breaking Bad como o veneno mortal usado pelo protagonista,
Walter White.
Passaportes brasileiros falsos também podem ser
encontrados. Mas, se a busca não aponta resultados para determinado
país, o Grams é inteligente o bastante para mostrar alternativas
geográficas próximas, como um vendedor argentino de LSD.
O botão “estou com sorte” apresenta aleatoriamente os
resultados das 100 buscas mais populares dentro do Grams. Muitos apontam
para material pornográfico, vídeos e coleções digitais, mas há também
pistolas automáticas e armas de choque não letais.
Apesar de não revelar quantas pessoas usam o Grams, seu
criador já trabalha em formas de ganhar dinheiro com o serviço, uma vez
que a comissão pelas transações fica apenas com os mercados onde elas
ocorrem. Novamente, ele recorreu ao modelo do Google para se inspirar.
Assim como o sistema de publicidade AdWords do gigante
das buscas, o Grams Word permite que um vendedor pague para ter destaque
na listagem de determinada palavra-chave. Um traficante de ecstasy, por
exemplo, pode aparecer primeiro quando um usuário busca por essa droga
no Grams. “Parece funcionar bem, e eu já recebi um bom número de
acessos”, escreveu o vendedor Dr-Oz no mesmo post em que o administrador
do site anunciou o novo programa.
Se o sistema vai garantir o sucesso financeiro do Grams
ainda é uma incógnita. Um dos principais problemas é a instabilidade
desse mercado. Durante a apuração desta reportagem, várias dessas
páginas passaram períodos fora do ar, e o próprio buscador foi alvo de
ataques DDoS depois de sua inauguração, uma constante na Deep Web.
“É preciso esperar para saber”, diz o professor Christin.
“Se em alguns meses o Grams ainda estiver funcionando e crescendo,
significa que ele poderá ser economicamente viável. Dada a demanda que
existe por drogas, seu modelo de negócios parece razoável à primeira
vista.” Se razoável quer dizer viável, essa é uma questão que ainda não
foi respondida.
O que o usuário encontra no Grams
Veja alguns dos itens mais populares nas listas do buscador
Drogas
Busca mais popular dentro do Grams, oferece um amplo catálogo de
substâncias ilegais disponíveis na Deep Web, como cocaína, haxixe,
heroína, MDMA e LSD
Armas
Também popular, a busca oferece entre os resultados pistolas, munição, mira laser, coletes blindados e até uma arma de choque disfarçada de pacote de cigarros
Passaporte falso
Documentos falsos também são itens de destaque nas listas do
Grams. É possível encontrar até um anúncio de passaporte falso
brasileiro entre as ofertas do site
Pornografia
CDs, revistas, filmes... Mas, de longe, os itens pornográficos
mais populares são pacotes de senhas que garantem acesso a portais de
conteúdo pornô pago
Remédios controlados
É possível encontrar o que nas farmácias é vendido apenas com
receita médica. Remédios controlados, como o tranquilizante Rivotril,
são populares nas buscas.
Via: INFO
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