Há 17 anos, Bill Gates publicou o livro A Estrada do Futuro. Nele, o então CEO da Microsoft
detalhava a próxima onda do mercado de tecnologia, a comunicação — que
Gates chamava de “estrada do futuro,” ou “road ahead,” termo que acho
que nunca pegou. Nas páginas daquele livro ele tentava prever como
seriam os próximos 20 anos no mercado tecnológico.
| Bill Gates, em 1995. (Reprodução) |
Um monte de coisas ele acertou, soluções que hoje são triviais mas que,
em meados da década de 1990, eram inimagináveis. Chega a ser curioso
ele se referir a “dispositivos que dão informações e conversam com o
usuário” sem ter em mente a figura do smartphone. Lido hoje, o livro é
uma viagem, uma mistura de passado (há muito do background de Gates e da Microsoft naquelas páginas amareladas pelo tempo) e previsão do futuro.
Se a comunicação marcou a segunda grande fase da computação, a primeira
foi guiada pela popularização dela. A Microsoft teve papel fundamental
no alvorecer da computação doméstica, da computação barata. Numa época
em que as máquinas eram grandes, caras, não conversavam entre si e
careciam de padronização, as apostas de Gates e Paul Allen no pequeno Intel 8008,
em um sistema padrão para todos os computadores, no IBM-PC, foram
acertadas. Visionárias. Garantiram não só a sobrevivência, mas a
transformação da Microsoft na maior empresa de software do mundo. Desde
aquela época antever tendências é a chave para vingar em um nicho.
Na fase das comunicações a situação foi mais conturbada, personificada, na Microsoft, pelo lendário memorando “Internet Tidal Wave,”
uma chamada do próprio Gates aos executivos da empresa sobre a
importância crescente da Internet naquele momento. Foi o pontapé inicial
para iniciativas na rede: naquele mesmo ano, 1995, nasceu o MSN e a
partir de então, citando o próprio Gates no referido documento, a
Internet adquiriu “o mais alto nível de importância.”
A Microsoft entrou atrasada na disputa? Talvez. Naquele momento já
havia um inimigo a ser batido, a AOL, e nos anos que se seguiram outros
titãs apareceram — Google e Facebook, para citar os dois maiores. A
oferta de serviços online da Microsoft nunca se destacou, mas foi
suficiente para não enterrar a empresa no limbo da irrelevância ao longo
dessa fase. Aos trancos e barrancos, longe do brilho da primeira no que
tange à Internet, ela passou. Fosse um aluno na faculdade, com uma
média 6,0, com a nota mínima. Mas passou.
A terceira fase: Era Pós-PC
| iPad. (Reprodução) |
Podemos dizer que essa segunda grande fase da computação foi mais
curta, teve 15 anos em vez dos 20 da primeira. Em 2010, o iPad deu
início à terceira fase: a era pós-PC. Longe de mim
teorizar sobre um assunto ainda em formação, mas é que já há sinais
suficientes para começar a montar o quebra-cabeças.
Computação ubíqua,
formatos e interfaces naturais, interoperabilidade de dados,
ecossistemas completos. Smartphones também fazem parte dessa equação e
ainda há muito chão para inovar — e sobre isso eu nem me arrisco a
palpitar sobre.
A era pós-PC é um desafio e tanto para a Microsoft porque a força a
sair da sua zona de conforto. Hoje, os dados estão na mão dos usuários —
uma reivindicação nossa que, bem ou mal e, que pese, ainda cheia de
limitações, está acontecendo. A maioria de nós que não usa o computador
como fim é capaz de pular de um sistema para outro sem perder quase
nada. Posso usar o Gmail no iPhone, o Hotmail no Android, posso migrar
minhas milhares de fotos do Mac para o Windows e vice-versa. Salvo casos
específicos, a ferramenta conta muito pouco; são os resultados delas,
as nossas informações, que importam. E se eu tenho a capacidade de
levá-las para qualquer lugar, o que me prende à plataforma “X” ou “Y”?
Note que é um cenário evoluído em relação àquele da primeira fase,
quando os computadores eram limitados, não conversavam entre si e havia a
necessidade de um padrão. Hoje, é justamente essa “falta de padrão” nos
sistemas, diferente e peculiar, que determina o uso, porque os dados
ganharam mais importância e podem ser carregados para todo lado, sempre
atualizados com a bênção da nuvem. Hoje eu posso ter um computador com
Windows, um tablet com iOS e um smartphone com Android — e tudo funciona
integrado e sincronizado. É este o meu setup atual e ele funciona muito
bem, obrigado.
Domínio do ecossistema
O que podem fazer Apple, Google, Microsoft e outras gigantes para
“segurar” usuários em seus produtos mais rentáveis? Duas coisas: experiência de uso e ecossistema.
Ecossistema é o rol de serviços circunstanciais de conteúdo que cada
empresa tem a oferecer. Pense na Apple e sua iTunes Store, com jogos,
apps, filmes, livros e músicas. A outra frente, experiência de uso, é o
quão agradável e livre de problemas trabalham os sistemas, o software.
Pense, novamente, nas reclamações que você ouve sobre o iPad. Nenhuma?
Pois é. A quem se atribui esse nível de excelência? A muitos fatores,
mas um dos principais é o controle total de hardware e software que a
Apple tem em mãos. O modelo diametralmente oposto ao do Windows, ao da
Microsoft.
Muita gente credita o sucesso da Microsoft nos seus primórdios ao
modelo de licenciamento adotado para o MS-DOS e, posteriormente, para o
Windows. A Microsoft sempre foi uma empresa de software, não de
hardware. Mas isso tende a mudar, e já está acontecendo.
O primeiro sinal foi o Xbox, no início da década passada. Um video game
próprio, feito integralmente pela Microsoft. Algo fora do “business
core” da empresa e, talvez por isso, feito sem muita pressão, quase
despretensiosamente. Deu muito certo. Agora, o mercado pede por mais
soluções do tipo e nos softwares-chave da casa. Com vocês, o Surface, tablet/híbrido com Windows 8 da Microsoft.
| Microsoft Surface. |
É uma ruptura que se inicia. É o primeiro dispositivo a rodar Windows
saído das mãos da Microsoft, a primeira vez que ela rejeita o modelo de
licenciamento que a fez prosperar. Os parceiros OEM? Continuam lá.
Mudanças grandiosas como essa não acontecem da noite para o dia e existe
a possibilidade de que ambos os sistemas, de fabricação doméstica e
terceirizada, convivam muito bem — o mercado comporta diferentes faixas
de preço e, quando for lançado, o Surface atenderá apenas uma. Mas é um
importante marco na trajetória da Microsoft. É o “memorando sobre a
Internet da era pós-PC,” da terceira fase.
A Microsoft será coadjuvante dessa vez? Como diz Gates, falando sobre previsões no prefácio de A Estrada do Futuro,
“tudo aquilo que eu tiver dito de certo será considerado óbvio. O que
estiver errado será considerado cômico.” Correndo o risco de ser motivo
de chacota daqui a alguns anos, digo que, dessa vez, ou ela se destaca e
dá a volta por cima para voltar a ser a protagonista que era nas
décadas de 1980 e 1990, ou consolidará o status de coadjuvante: se
colocarmos dispositivos iOS (iPhone e iPad) no mesmo balaio dos
computadores convencionais (e é justamente sobre isso a era pós-PC),
hoje computadores com software Microsoft são vendidos na proporção 2 por 1 em relação aos com software Apple. Ou a Microsoft muda, ou essa proporção se inverterá em breve. Muito em breve.
Via: Techtudo
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