segunda-feira, 18 de maio de 2015

Como Richard Stallman usa o computador

Richard Stallman usando um notebook.
Richard Stallman, criador do Emacs, do projeto GNU e da Free Software Foundation, é um sujeito único. Sobram histórias das suas excentricidades, a maioria relacionada a uma fobia crônica a tudo que não seja livre. Nesta bela tarde de maio de 2015, o próprio publicou em seu site um relato detalhado sobre como usa o computador.
É notável como, de diversas formas, ele faz curvas para evitar software proprietário. E não é apenas uma questão “Windows vs. Linux;” até partes mais obscuras que movem um computador, como o programa de inicialização (a “BIOS”), e entretenimento barato, como a Netflix, não escapam da sua obsessão pela liberdade.
Separei e traduzi alguns dos trechos mais curiosos:

Ele usa um ThinkPad X60 totalmente livre

“Uso um computador Thinkpad X60, no qual a FSF instalou um programa de inicialização livre (libreboot) e um sistema operacional livre (Trisquel GNU/Linux). Este é o primeiro modelo de computador vendido comercialmente com um programa de inicialização e sistema operacional livres, e assim, é o primeiro produto que a FSF pode endossar. (Apesar disso, ele não foi vendido desse jeito pela Lenovo.)
Antes, usei um Lemote Yeeloong por vários anos. Na época, era o único computador que alguém poderia comprar capaz de rodar um programa de inicialização livre e um sistema operacional livre. Mas ele nunca foi vendido com um sistema operacional livre.
Antes disso, usei um OLPC por algumas semanas. Parei porque o projeto OLPC decidiu fazer suas máquinas usarem Windows, então não queria parecer que o endossava. O OLPC usa um firmware não-livre para o Wi-Fi, então eu não podia usar o dispositivo Wi-Fi interno. Sem problemas, eu usava um externo.
O resultado que eu temia, milhões de crianças rodando Windows no OLPC, não se concretizou. Em vez disso, vemos milhões de crianças rodando Windows no Intel Classmate.
Antes disso usei máquinas que rodavam sistemas GNU/Linux completamente livres, mas que tinham BIOS não-livres. Tentei por cerca de oito anos encontrar uma maneira de evitar BIOS não-livres.”

Ele basicamente escreve no PC

Parece um OLPC em seu colo.
“Quase sempre uso um console de texto, por questão de conveniência. A maior parte do meu trabalho é editar texto e isso é mais eficiente em um console de texto. Nele, o touchpad não me atrapalha se eu tocá-lo acidentalmente.
(…)
Passo a maior parte do tempo editando no Emacs. Eu leio e envio e-mails com o Emacs usando M-x rmail e C-x m. Não tenho experiência com outros programas de e-mail. Em princípio eu conheceria de bom grado outros clientes de e-mail livres, mas aprender sobre eles não é uma prioridade para mim e eu não tenho tempo.”

UX é bobagem

Stallman respondendo e-mails no rio.
“Este site é mantido de uma forma bem simples. Eu edito as páginas como esta manualmente em HTML. Conheço apenas HTML simples; outros que sabem mais escrevem as partes do cabeçalho e rodapé, e a formatação mais complexa da página. Voluntários ajudam a instalar as notas políticas todo dia após receberem os textos que envio por e-mail. Um cron jon ‘rola’ as páginas de notas políticas a cada dois meses. As galerias de fotos são geradas com este script em Perl. O recurso de pesquisa no site é feito comeste código.
Uma explicação do conceito de projetar uma ‘experiência de usuário’ também exemplifica por que acho isso repugnante. É por esse motivo que quero que o stallman.org permaneça simples: não uma ‘experiência de usuário,’ mas sim um lugar onde apresento certas informações, visões e oportunidades de ação a você.”

Internet? Muito cuidado

“Sou cuidadoso em como uso a Internet.
Geralmente não me conecto a sites a partir da minha máquina, fora alguns com os quais tenho uma relação especial. Geralmente salvo páginas web de outros sites enviando um e-mail a um programa (veja: git://git.gnu.org/womb/hacks.git) que obtêm seus dados, bem parecido com o wget, e então as envia de volta a mim. Daí dou uma olhada usando um navegador web, a menos que seja fácil ver o texto na página HTML diretamente. Geralmente tento o lynx primeiro, e então um navegador gráfico se a página precisar disso (uso o Konqueror, que não pega nada de outros sites em situações do tipo).
Vez ou outra também navego usando o IceCat via Tor. Acho que isso é o suficiente para evitar que minha navegação seja associada a mim, já que não me identifico ao site que estou visitando.”

Stallman não compra (quase) nada pela web

Stallman muquirana na web.
“Nunca pago por coisas na web. Qualquer coisa na Internet que exija pagamento, eu não faço. (Abri uma exceção para as taxas do domínio stallman.org, já que ele está ligado a mim de qualquer forma.)
Não ligaria de pagar pela cópia de um e-book ou gravação musical na Internet se pudesse fazer isso anonimamente, e ela fosse ética em outras formas (sem DRM ou EULA). Mas essa opção quase nunca existe. Continuo buscando outras maneiras de fazê-la acontecer.”

Ele toca computadores com software proprietário

“Eu me recuso firmemente a instalar software não-livre ou tolerar sua presença instalada em meu computador ou em computadores que configuram para mim.
Entretanto, se estou visitando alguém e as máquinas disponíveis nas proximidades calham de ter software não-livre, desde que não seja a minha, não me recuso a tocá-las. Eu as uso rapidamente para tarefas como navegação. Esse uso limitado não ganha o meu aval à licença do software, ou me torna responsável pela sua presença no computador, nem me torna possuidor de uma cópia dele, então não vejo uma obrigação ética em evitar isso. Claro, explicou às pessoas do local por que elas deveriam migrar suas máquinas para software livre, mas não insisto, porque irritá-las não é a maneira de convencê-las.”

Abaixo Google e Facebook

Stallman no deserto.
“Para pesquisas, tenho usado mais o DuckDuckGo nos últimos dois anos. Ele funciona com o JavaScript desabilitado, mas você precisa seguir um link antes de pesquisar.
(…)
Nunca tive uma conta no Facebook, ou no Google+. Eu rejeito esses serviços por princípio. Alguns impostores criaram uma conta no Facebook usando meu nome. A página não é minha. A conta no Google+ usando meu nome também não é minha.”

A história da amiga e a Netflix

“Uma vez uma amiga me chamou para ver um vídeo com ela que seria exibido em seu computador usando a Netflix. Eu rejeitei [o convite], dizendo que a Netflix era uma afronta tão grande à liberdade que eu não poderia fazer parte do seu uso em quaisquer circunstâncias.”
Ah, Stallman, acho que ela não queria exatamente ver um filme…

As fotos vieram desta incrível galeria em seu site pessoal.
Se o seu inglês estiver afiado, vale a leitura do post completo. É definitivamente curiosa a relação de Stallman com a tecnologia, e algumas situações podem parecer até cômicas, mas esses extremos são importantes para equilibrar uma balança que, com frequência, parece pender fortemente para o lado proprietário — o que é tão prejudicial quanto seria se todos usássemos computadores da forma que Stallman usa.

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