Uma vez, muito tempo atrás fui visitar um sítio no interior do RJ.
Andávamos pelo pomar, à beira de um lago, colhendo tangerina, misturando
com cachaça produzida em alambique próprio e reclamávamos daquela vida
dura. Uma típica noite de verão, escura, sem Lua, mas quente (sim, já
fez calor no RJ).
Do nada um ponto de luz surgiu, traçando uma linha luminosa que
percorreu pelo menos metade do céu. Comecei a contar, e ela durou 12
segundos exatos antes de desaparecer. No segundo 8 eu já tinha certeza
que era um portal interdimensional ou uma ruptura do tecido
espaço-temporal, mas era “só” um meteoro.
O ângulo foi perfeito, ele entrou quase paralelo, toda sua energia
cinética foi transformada em luz e calor, um espetáculo astronômico
inofensivo, emoldurado por um céu magnificamente estrelado, que muita
gente nunca verá.
Quer um exemplo? Pergunte a seus amigos qual o tamanho da Via Láctea
no céu. A maioria dirá que é minúscula, quase todos nunca a terão visto,
e é uma galáxia inteira. Na verdade a Via Láctea ocupa uma faixa
inteira do céu, mas vivemos em cidades com tanta poluição luminosa que é
impossível visualizá-la.
Nos grandes centros somente as estrelas e planetas mais brilhantes
são visíveis, e temos que ir cada vez mais para o interior, se quisermos
condições ideais de observação. E quem tem tempo pra isso?
Paul Bogard, autor de The End of Night: Searching for Natural Darkness in an Age of Artificial Light
alerta para o fim da “Noite” como a conhecemos. Vivemos em cidades,
passeamos em outras cidades, andamos na rua em locais bem iluminados e
nosso medo da escuridão rivaliza o do tempo das cavernas.
Uma criança de classe média típica dos EUA viverá de shopping centre (em inglês, mall)
em shopping centre, quando se tornar adolescente sairá do metrô direto
pra boate, danceteria ou seja lá onde essas malditas crianças se reúnam,
mas sempre sem olhar para cima, e se olharem, verão no máximo uma
lâmpada.
Escuridão significa se afastar das benesses da Civilização e ninguém
quer isso. Sem tomada pra carregar o 3DS, nem pensar. Com isso estamos
dando as costas –literalmente- para o Universo. Deitar na grama em uma
noite sem lua, esperar meia-hora até a visão atingir o máximo de
sensibilidade e então perceber que estamos vendo 10x mais estrelas do
que o normal, meteoros e satélites? Isso é tão alienígena quanto… um
alienígena.
Um tempo atrás o New York Times fez uma série de montagens mostrando como seria o céu das grandes cidades do mundo, sem a iluminação artificial.
Claro, cairíamos no caos, na anarquia, no vandalism-tá, já caímos, mas
seria pior- é inviável, mas não custa sonhar. Veja como seria São Paulo…
Se você é um adulto, já era, mas se tem acesso a crianças
(legalmente, por favor) arrume um fim de semana e leve-as a lugares como
o Planetário do Rio, ou procure organizações como o Clube de Astronomia de São Paulo.
Eles organizam eventos e passeios curtos de observação, em locais
remotos e ideais para enfiar o pé na lama, olhar para cima e perceber
que não somos feitos de barro, mas de estrelas.
Via: MeioBit
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