segunda-feira, 14 de julho de 2014

Facebook é o valentão do pátio da escola, desmoralizado

Ainda me lembro de quando o Facebook ainda era "The Facebook", antes das portas estarem abertas para qualquer um que quisesse entrar na rede social,  de a febre do Farmville e das intermináveis solicitações para jogar Candy Crush nos aborrecerem tanto. Não muito tempo atrás, o Facebook servia ao simples propósito de nos conectar com as pessoas com as quais dividimos os bancos escolares  e,  talvez, alguns amigos.
Desde então, o Facebook cresceu e evoluiu, mas não para melhor. Agora, ele bombardeia os usuários com anúncios desnecessários para coisas que ninguém realmente quer e histórias patrocinadas inúteis que mais parecem spyware do que qualquer coisa que alguém queira ler. Ah, e experiências sobre seus usuários.
Apesar das críticas que recebe, merecidamente, o Facebook ainda consegue conectar seus mais de 1 bilhão de usuários.
Mas as revelações na semana passada, sobre o experimento social no qual os  usuários tiveram seus feeds manipulados, pode acelerar o declínio da rede social, colocando-o no caminho já trilhado pelo MySpace, Friendster e sites sociais similares.
Que o Facebook está em declínio não é nenhum segredo. A empresa está claramente preocupada em estar perdendo sua influência com os usuários mais jovens. No início deste ano, a Universidade de Princeton divulgou um estudo que concluiu que o Facebook poderá perder 80% de sua base de usuários entre 2015 e 2017, por conta da desilusão dos mais jovens. E ainda assim a empresa não parece realmente entender o que a levou a este ponto.
Não é apenas o experimento - sobre a qual a empresa pediu desculpas por - que está provocando a fuga os usuários.
Perfis falsos
Embora o Facebook tenha tentado conter a atividade ilegal em seu site, os criminosos continuam a frequentá-lo. Tanto a Fox News quanto a Daily Mail alertam seus leitores sobre uma série de crimes cometidos no Facebook, desde pedofilia e divulgação de pornografia infantil até ataques de malware através da disseminação de links backdoor. (O Facebook tem, pelo menos, uma parceria com a empresa de segurança McAfee para resolver as ameaças de malware.)

Como Facebook não verifica os perfis de pessoas comuns, até que alguém os denuncie, qualquer pessoa pode criar um perfil - incluindo aqueles com intenção maliciosa, os criminosos virtuais e até os criminosos comuns. O Facebook não presta atenção a estes perfis, até que seja notificado de sua existência.
Privacidade? Que privacidade?
Preocupações com a privacidade são, historicamente, um dos maiores problemas da empresa, e têm potencial para se tornarem o principal motivo de a rede social eventualmente deixar de existir. Um estudo da Universidade de Viena olhou para as pessoas que decidiram sair do Facebook e descobriu que quase metade, 48%, cometeu "suicídio da identidade virtual" por causa de preocupações com a privacidade.

Sendo um usuário do Facebook, já passou pela minha cabeça várias vezes a vontade de encerrar a minha conta. A cada nova quebra de confiança, essa parece ser a atitude mais provável.
O Facebook tem constantemente usado seus próprios termos e condições de serviço para justificar o uso de suas fotos de perfil para o conteúdo da propaganda e ter os direitos totais para todas as imagens que você postar. A empresa sempre manteve as configurações de segurança enterradas na interface do usuário, uma questão importante que tem deixado muitos usuários irritados e empurrado alguns para fora, simplesmente.
A experiência recente
Em janeiro de 2012, o Facebook passou por experimento sociológico como parte de uma joint venture entre a Universidade de Cornell e a equipe de cientistas de dados da própria empresa. O experimento envolveu 689.003 usuários e mais de três milhões de atualizações de status. Foi projetado para determinar se o conteúdo emocional dessas atualizações podia influenciar estados emocionais de amigos de amigos. O resultado final, no entanto, ao se tornar pública a pesquisa, foi dinamitar qualquer sentimento de confiança entre os usuários da rede social.

Cornell, desde então, divulgou um comunicado colocando alguma distância entre a universidade e o Facebook, direcionando todas as perguntas éticas para o próprio Facebook. "O professor [Jeffrey] Hancock e Dr. [Jamie] Guillory [agora na Universidade da Califórnia - San Francisco] não participaram na coleta de dados e não tiveram acesso aos dados dos usuários. O trabalho deles foi limitado a discussões iniciais, analisando os resultados da pesquisa e do trabalho dos colegas do Facebook para preparar e revisar o relatório final".
Adam Kramer, o pesquisador do Facebook que trabalhou no estudo, publicou sua própria explicação - no Facebook, é claro - para tentar tranquilizar os usuários de que a empresa cumpriu suas políticas internas e termos de uso, assegurando que o estudo era ético.
Agora, vamos ser realistas; estudos como este podem ser úteis, uma vez que a mídia social é uma parte importante do nosso dia a dia. Mas manipular as emoções das pessoas pode ser extremamente perigoso, e a possibilidade de ferir alguém, não importa quão pequena, é um preço muito alto a pagar.
As lideranças do Facebook - em particular, aquelas que estão envolvidas com o estudo - aparentemente dormiram em seus cursos de ética na faculdade. Uma empresa tem,  tecnicamente, o direito de esconder seus termos e condições, tanto quanto quiser; mas isso é correto [aqui no Brasil, principalmente após a entrada em vigo do Marco Civil da Internet, os termos de uso devem ser de fácil compreensão]. O episódio, na verdade, só reforça a crescente convicção de que o Facebook age de acordo com suas próprias regras, os usuários que se danem. E os usuários mais jovens - aqueles mesmos que a rede social necessita para se manter viva - são os que sentem mais.
Não é tarde demais para manter esses e outros usuários a bordo. Um estudo da Forrester mostrou que 57% dos usuários pesquisados entre as idades de 12 e 17  ainda apontam o Facebook como o site social mais usada frequentemente, e quase a metade das crianças entre 12 e 13 anos agora usa o Facebook mais do que eles fazia há um ano.
Se o Facebook vai continuar a ser uma potência em 2017 ou, até lá, continuará em uma trajetória descendente como previu o estudo de Princeton, é algo que só o tempo dirá. O que é certo é que um número considerável de pessoas vai continuar a sair da rede por conta de questões de privacidade.
Claramente, o Facebook não aprendeu com os erros anteriores e a reação do público. É uma empresa que não se preocupa com seus usuários; caso contrário, iria respeitá-los mais, criando um sistema de verificação de perfis para legitimar as contas de usuário, dando aos usuários a capacidade de auto-exclusão de qualquer "estudo", fazendo um trabalho melhor para proteger seus usuários de criminosos, virtuais ou não.
A falta de respeito mostrada nos últimos tempos, se não for controlada, vai ser a queda da empresa.

Via: IDGNow

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