Sempre ouvi dizer que a Tecnologia da Informação (TI) no setor de
saúde era uma área de grande complexidade e algumas incertezas. Mas
sempre achei que o problema estivesse mais em cima, na
interoperabilidade dos sistemas médicos e administrativos. Engano meu. A
primeira edição da pesquisa TIC Saúde, do Centro de Estudos sobre as
Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br), órgão do Núcleo
de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e ligado ao Comitê
Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mostra que o problema é bem mais
embaixo. A Infraestrutura de TIC está presente na maioria das
instituições de saúde do país, mas o uso estratégico e clínico está
muito aquém do desejado.
O objetivo do estudo, que entrevistou 1.685 gestores de
estabelecimentos de saúde públicos e privados em todo o território
nacional, além de ouvir 4.180 médicos e enfermeiros vinculados a estes
estabelecimentos, foi compreender o estágio de adoção das tecnologias de
informação e comunicação (TIC) nos estabelecimentos de saúde do Brasil e
a apropriação dessas tecnologias pelos profissionais do setor. Os
resultados mostram que, apesar de 94% dos estabelecimentos de saúde
pesquisados terem computadores e 91% acesso à Internet, 63% dos médicos
terem acesso a computadores no trabalho e 60% à Internet, 72% dos
enfermeiros terem acesso ao computador e à Internet nos locais de
trabalho e 99% dos médicos e 97% dos enfermeiros terem acesso à Internet
em casa, o uso dessas ferramentas no local de trabalho ainda é baixo.
Embora 60% dos médicos com acesso a computador no local de trabalho
acessem diagnósticos, problemas ou condições de saúde do paciente, a
maioria se queixa de falta de treinamento para uso de ferramentas como
prontuários eletrônicos e de de teleconferência entre os profissionais
da saúde. Só 30% dos estabelecimentos públicos com Internet possuem
disponíveis os serviços de educação a distancia em saúde e 24% dos
públicos possuem disponíveis atividades de pesquisa a distancia; 24% dos
estabelecimentos públicos com Internet participam de alguma rede de
telessaúde, enquanto 8% dos privados com Internet declararam integrar
esse tipo de rede.
A maioria dos hospitais com acesso a alguma rede de telessaúde
integram a rede de hospitais universitários servidos pela Rede
Universitária de Telemedicina (Rute), coordenada pela Rede Nacional de
Ensino e Pesquisa (RNP), referência na área. Em 2012, a Rute recebeu a
qualificação de melhor prática em telemedicina pelo Banco Interamericano
de Desenvolvimento (BID), Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e
Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL). E este mês
promoveu a primeira transmissão de quatro cirurgias em 4k (resolução
quatro vezes superior à full HD), em tempo real e de forma simultânea,
diretamente do Brasil para os Estados Unidos. Foram transmitidas
cirurgias de próstata, fígado, buco-maxilo e coração para 150 pessoas em
San Diego e 60 no Brasil. A plateia brasileira contou com funcionários
da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH) e da
Universidade de Brasília (UnB), além de médicos e pesquisadores. Na
Califórnia, a demonstração fazia parte do CineGrid, evento que conta com
a participação de profissionais de cinema e tecnologia da informação
vindos de todas as partes do mundo, além de médicos e pesquisadores da
Universidade de San Diego.
Entre as principais barreiras para a implementação e o uso das TIC
nos estabelecimentos estão a falta de prioridade por parte das políticas
públicas e a insuficiência de treinamento.
-> 83% dos médicos e 72% dos
enfermeiros consideram a falta de prioridade das políticas públicas como
barreira que dificulta ou dificulta muito a implantação das TIC;
-> 75% dos médicos e 71% dos
enfermeiros consideram a falta de treinamento como fator que dificulta
ou dificulta muito a implantação e o uso de sistemas;
-> e a falta de prioridade das
políticas internas do estabelecimento também aparece como barreira
relevante para médicos (70%) e enfermeiros (66%).
Um bom exemplo dessas questões é o que vem acontecendo com o programa Mais Médicos. Segundo levantamento feito pelo Estadão,
sem contar com Wi-Fi nos postos de saúde onde trabalham, profissionais
do programa Mais Médicos não conseguem usar parte dos recursos
oferecidos no tablet dado pelo Ministério da Saúde para auxiliá-los no
atendimento aos pacientes. Entre esses recursos estão o tradutor
português-espanhol, as consultas ao Código Internacional de Doenças
(CID-10) e o aplicativo Telessaúde, no qual os profissionais podem
enviar suas dúvidas para os supervisores.
A equipe do Estadão percorreu 48 cidades do Estado de São Paulo que
receberam profissionais. Só 8 prefeituras do interior têm internet WiFi
em todos os seus postos de saúde. Outras seis têm a tecnologia em
algumas unidades. A capital é um dos municípios que não têm internet
Wi-Fi em nenhum de seus postos de saúde. Os números ilustram bem os
resultados encontrados pela pesquisa TIC Saúde.
Os estabelecimentos de saúde foram divididos em quatro tipos, com
base em uma definição do IBGE: estabelecimentos sem internação,
estabelecimentos com internação e com até 50 leitos, estabelecimentos
com internação e com mais de 50 leitos e estabelecimentos de serviço de
apoio à diagnose e terapia (SADT). O menor acesso à infraestrutura está
nos estabelecimentos sem internação, onde podem ser encaixados os postos
de saúde: 20% deles não têm qualquer conectividade.
De acordo com Fábio Senne, coordenador de pesquisas do CETIC.br, a
situação é pior entre os estabelecimentos sem internação do interior.
Nas capitais, apenas 3% não têm qualquer acesso à Internet.
Segundo o Ministério da Saúde, os tablets do Mais Médico têm
tecnologia 3G e cabe ao médico contratar um pacote de dados móveis para
ativar o serviço. Seria tão caro assim o Ministério arcar com os custos
da conexão 3G? A logística para isso seria complicada, SindiTelebrasil?
E o Fust, não poderia ser usado para este fim?
Talvez, se os tablets tivessem os programas para administração e
gestão do DataSUS, o governo federal não pensasse duas vezes. Essa foi a
área que mais avançou. Os maiores desafios para os próximos anos,
segundo Senne, é avançar no uso da tecnologia disponível para melhorar a
qualidade do atendimento e do diagnóstico.
Apenas 26% dos estabelecimentos oferece algum tipo de serviço via
Internet para os pacientes. Quase sempre, o acesso a resultado de
exames. Só 17% oferecem o agendamento de exames e 13% o agendamento de
consultas.
As iniciativas de uso de prontuários eletrônicos ainda é baixa (tabela abaixo).
Entre os dados sobre os pacientes disponíveis eletronicamente, os mais
presentes são os de caráter administrativo, como dados cadastrais e
referentes à admissão, transferência e alta de pacientes. Informações
clínicas estão menos presentes em meios eletrônicos.
Enquanto 83% dos estabelecimentos que utilizaram a Internet nos
últimos doze meses afirmaram ter disponíveis os dados cadastrais do
paciente, apenas 21% possuem informações em meios eletrônicos sobre
vacinas tomadas pelo paciente e 25% possuem imagens de exames
radiológicos.
O levantamento do CETIC.br é o primeiro no Brasil na área e adota o
modelo de pesquisa proposto pela Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE). Conta com o apoio institucional do
Ministério da Saúde, por meio do Departamento de Informática do SUS
(Datasus), da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), acadêmicos e
de especialistas no setor. “São mais de 80 indicadores. Uma pesquisa
muito rica”, afirma Senne. A intenção é manter atualizações anuais, a
exemplo de outras pesquisas do CETIC.br, como a TIC Educação. Como os
indicadores seguem um padrão internacional, no futuro a ideia é
compará-los com os de outros países, para saber como anda a saúde das
TICs na área de Saúde no Brasil.
Via: IDGNow
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