O anúncio do PlayStation 4
na semana passada foi monumental, não só pelo fato de que pode ter sido
o primeiro lançamento de um console em toda a história onde a
fabricante não mostrou o console em si. Mas enquanto o resto do mundo
lamentava a ausência do hardware, a Sony anunciou algumas das
especificações técnicas de seu sistema.
E escondido em meio a todo o jargão estava um segredo: o PlayStation 4
é, na verdade, um PC completo. O mais interessante é que a ficha
técnica indica que ao contrário de seu antecessor, que era um verdadeiro
monstro quando lançado, o novo console estará defasado em relação aos
mais sofisticados PCs para games a partir do momento em que chegar às
lojas.
| Sony mostrou o controle do PlayStation 4, mas escondeu o console |
Isto não é exatamente uma surpresa. “Dois anos atrás se você previsse
a evolução do hardware à velocidade da época, e levasse em conta a
evolução dos preços, já era possível ver que nenhum console lançado
entre 2013 e 2015 seria capaz de vencer um PC”, disse Cevat Yerli, CEO
da Crytek em declaração à Eurogamer.
A Sony acabou de provar que Yerli está certo. Mas será que os gamers
de ambos os lados da batalha entre consoles e PCs devem se preocupar?
Analisando os números
Antes de mais nada, vamos analisar as principais especificações
técnicas do PlayStation 4 e analisar como se comparam aos PCs para
jogos. Não tenham medo, tentarei manter o jargão ao minimo.
Uma Accelerated Processing Unit (APU) da AMD é o coração do
PlayStation 4. Ela é composta por oito núcleos de processamento baseados
na arquitetura “Jaguar” da empresa. Estes núcleos são acompanhados por
uma GPU Radeon de próxima geração, com 18 unidades computacionais
capazes de um poder de cálculo de 1.84 Teraflops. Assim como todas as
outras APUs da AMD, tanto os processadores quando a GPU estão
localizados no mesmo chip, e compartilham impressionantes 8 GB de veloz
memória GDDR5 entre si.
| APUs AMD Fusion, como esta, também são usadas em tablets e notebooks de baixo custo |
Muitos dos detalhes mais intrincados do hardware projetado sob medida
para o PlayStation 4 ainda estão sob sigilo. Mas usando o que já
sabemos sobre a tecnologia da AMD, podemos criar uma estimativa razoável
do desempenho do console quando comparado aos PCs modernos, e o
resultado não nos deixa exatamente impressionados.
Uma comparação direta
Em primeiro lugar há a questão dos oito núcleos. Sem entrar em
detalhes, a arquitetura Jaguar é a sucessora da “Bobcat” usada em APUs
de baixo consumo da AMD, e não é especialmente poderosa. Embora a idéia
de um console com oito processadores pareça um sonho à primeira vista, a
ilusão de desfaz quando nos damos conta de que entre os PCs a
arquitetura Jaguar será usada em processadores modestos para tablets,
netbooks mais sofisticados e notebooks de entrada.
Em outras palavras, o desempenho do processador do PlayStation 4 não
irá impressionar em comparação a um PC usando um processador AMD moderno
baseado nas arquiteturas Piledriver ou Bulldozer. Pode nem mesmo
superar um modesto Intel Core i3, especialmente se os oito núcleos
operarem a 1.6 GHz como dito nas primeiras (e no geral precisas)
informações sobre o PlayStation 4 publicadas na revista Eurogamer.
Já as especificações da GPU não batem com nenhuma das GPUs da família
Radeon HD 7000 da AMD, e não temos certeza de quão customizada ela
realmente é. Ainda assim, o desempenho de 1.84 Teraflops a coloca um
pouco à frente da Radeon HD 7850 mas atrás da Radeon 7870. Isto também é
verdade se assumirmos que as 18 unidades computacionais tem uma
arquitetura similar à “GCN” usada nas GPUs da série Radeon HD 7000.
| Hoje em dia todo mundo roda Crysis. Mas os PCs rodam melhor (clique para ampliar) |
A Radeon HD 7850 não é de se jogar fora. De fato, se você procura uma
placa de vídeo “midrange” ela é uma excelente opção. Mas é uma placa
mediana, e não uma topo de linha, e ainda assim será a espinha dorsal do
sistema gráfico do PlayStation 4 por anos a fio.
No geral, se você comparar o hardware do PlayStation 4 com o que está
disponível hoje entre os PCs, verá que o console é baseado em uma CPU
de baixo desempenho e uma GPU mediana. Ele tem até mesmo um HD
tradicional, mecânico, em uma época em que muitos gamers já migraram
para as velozes unidades de estado sólido, ou SSD.
Mas as coisas não são tão simples...
Mas esperem, não estou criticando o PlayStation 4. Um PC para jogos
não é um console. E ao contrário dos PCs para jogos, que podem ser
overclockados, refrigerados a água e custar muito mais de US$ 1.000,
consoles tem de equilibrar desempenho, custo e temperatura para que
sejam interessantes ao grande público, ao mesmo tempo em que se mantém
pequenos e silenciosos o suficiente para uso em uma sala de estar. Estas
restrições limitam onde os consoles da próxima geração poderão chegar.
“Dado o preço ao consumidor, o custo de produção de um PC para games e
a quantidade de energia de que ele precisa - quase tanto quanto uma
geladeira - é impossível [que os consoles de próxima geração alcancem o
poder de um PC para jogos]”, disse Yerli em sua entrevista à Eurogamer.
Dito isto, todas as decisões de design da Sony fazem muito sentido,
como afirmou o criador de Doom e programador prodígio John Carmack.
Assumindo que a arquitetura Jaguar siga os passos da Bobcat que a
precedeu, a APU do PlayStation 4 deve consumir pouquíssima energia e
rodar fria e silenciosa.
| John Carmack, co-fundador da id Software, aprova as escolhas feitas pela Sony no PS4 |
Com certeza uma CPU “de entrada” projetada para portáteis não é capaz
de igualar o poder bruto de um bom processador para desktops, mas o
PlayStation 4 ainda será capaz de limpar o chão com o PlayStation 3 e o
Xbox 360 em termos de poder de processamento. E em todo caso a GPU
sempre foi o componente mais importante em um console.
Entretanto, focar nos detalhes técnicos é ignorar o maior truque que o
PlayStation 4 tem debaixo de sua manga. “Do ponto de vista de hardware,
a capacidade gráfica do PS4 o coloca no mesmo nível que um PC com uma
AMD Radeon 7870 quando você leva em conta a CPU e a GPU”, disse Patrick
Moorhead, analista principal da Moor Insights and Strategy, via e-mail.
Detalhe importante: Moorhead foi durante muito tempo o vice-presidente
de estratégia da AMD antes de montar sua empresa.
“Mas isso é só uma forma de ver as coisas. A outra é analisar o
software”, disse Moorhead. O kit de desenvolvimento da Sony e os jogos
rodam mais próximos do hardware, o que significa que podem conseguir
melhor desempenho do que um PC tradicional. O PS3 tem tecnologia gráfica
de sete anos atrás, e ainda assim consegue produzir experiências
visuais muito boas. Imagine do que o PS4 será capaz com tecnologia
atual”.
Melhor ainda, não imagine. Veja o vídeo abaixo, que mostra um pouco do jogo Killzone: Shadow Fall rodando em um PlayStation 4.
Killzone: Shadowfall. Um dos primeiros jogos para o PlayStation 4
O que tudo isso significa?
Mas o que o “jeitão de PC” do PlayStation 4 significa para a
indústria dos games? Ao adotar a mesma arquitetura utilizada nos PCs, a
Sony tornou muito mais fácil para os desenvolvedores criar jogos que
funcionem tanto em consoles quanto em computadores com o mínimo de
adaptação.
Melhor ainda, os gamers de PC deverão ver o número de versões ruins
de jogos de console cair rapidamente depois da chegada da próxima
geração, porque os desenvolvedores já estarão praticamente escrevendo
seus jogos para rodar num “PC”. A transição também pode ser lucrativa
para os gamers que preferem os consoles, já que a arquitetura familiar
significa que os desenvolvedores poderão “pisar fundo” já no começo do
ciclo de vida do PlayStation 4, sem o tradicional período de adaptação
até que aprendam do que o novo console é realmente capaz.
O PlayStation 4 também é uma grande vitória para a AMD, e uma que
será amplificada se o próximo Xbox também adotar sua tecnologia, como dizem os rumores.
O console não só garante uma fonte de renda estável pelos próximos
anos, mas também garante que todos os jogos desenvolvidos tendo em mente
uma versão para consoles serão otimizados para funcionar com as GPUs da
AMD. É uma grande vantagem para a empresa, que anda mal das pernas. A
presença das APUs AMD nos principais consoles também avança a iniciativa
de “computação heterogênea” da empresa.
Por fim, o PlayStation 4 consolida o fato de que o mercado de games
está passando por uma convergência. Desculpem, fãs, mas as paredes que
vocês defenderam com tanto vigor em ambos os lados da guerra entre PCs e
consoles estão sendo demolidas.
Jogos para PCs estão se distanciando do desktop, consoles estão
fazendo streaming de jogos para smartphones e sendo controlados por
aplicativos para o Windows, o PlayStation 4 nada mais é do que um
computador disfarçado de console e você pode enviar tweets a partir de
qualquer aparelho no qual consiga colocar as mãos.
O futuro dos jogos está se tornando uma “bolha” amorfa incorporando
quaisquer telas que estejam ao seu redor, mas consoles e PCs continuarão
a ser os comandantes de seus respectivos nichos. A próxima geração de
consoles continuará a oferecer uma experiência de uso simples,
verdadeiramente “plug and play”, com recursos extras e desempenho que
excedem em muito o que é possível com o hardware da geração atual.
Mas se você é o tipo de gamer que vive no limite, e que não aceita
nada menos que o maior nível de detalhes na maior resolução e framerate
possível, ainda verá o PC como campeão invicto no futuro próximo. Só se
lembre de que com grande desempenho vem um grande preço.
Via: IDG Now
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