Até 2006, o outsourcing era um termo utilizado para designar uma ação
na qual as empresas procuram mão-de-obra terceirizada, ou seja, fora de
suas companhias, para realizar determinados serviços e tarefas. No
entanto, depois de um artigo na revista Wired,
escrito pelo jornalista Jeff Howe, o conceito ganhou uma nova
ramificação chamada crowdsourcing, mostrando o potencial do Poder das
Multidões - por acaso, título do livro de Howe sobre o assunto, lançado
dois anos depois.
Realizada pela segunda vez no Brasil, a Conferência Crowdsourcing
de Co-criação e colaboração reúne em São Paulo especialistas sobre o
assunto e representantes de grandes empresas que decidiram abrir setores
para receber ou oferecer posições de trabalho para qualquer um que
estivesse disposto a realizar um projeto, escrever sobre um assunto,
aprender ou simplesmente ajudar o próximo, às vezes sem ganhar nada por
isso.
Parece utópico? Não está tão distante quanto parece - basta pensar
que dois produtos extremamente conhecidos e utilizados em larga escala
no mundo surgiram de iniciativas de crowdsourcing: Wikipedia e Skype.
Foi com exemplos assim que Shaun Abrahamson, fundador da Mutopo, empresa
de consultoria de social production, realizadora do evento, abriu o
ciclo de palestras.
Invasão da multidão
“Está é uma década de guerra do crowdsourcing. Vimos o fim de todo o negócio de enciclopédias e o Skype, que demorou menos de uma década para transformar a economia de [conferências] por áudio e vídeo”, exemplificou Shaun. Em seguida, o executivo mostrou exaustivamente uma série de exemplos de empresas que estimularam modelos de negócios através do crowdsourcing em áreas como saúde, educação, entretenimento, atendimento ao consumidor, entre outros.
O executivo dissertou como empresas como a ZocDoc,
um site que permite fazer agendamentos online de consultas e agrega
avaliações dos pacientes, para que possam identificar os melhores
profissionais, o Duolingo,
que oferece a possibilidade do usuário aprender uma nova língua
enquanto traduz excertos de textos, enquanto, ao mesmo tempo, faz parte
de um projeto para traduz a web, o suporte técnico da HP, que faz com
que os consumidores ajudem uns aos outros (“um exército de voluntários
contra o suporte pago”, de acordo com a definição de Abrahamson), o
projeto Life in a Day
do YouTube, que pediu para que as pessoas gravassem seus próprios
vídeos para que, ao final, o material fosse compilado e editado na forma
de um documentário, entre outros exemplos.
Nesta mesma mesa de debate, estavam representantes de quatro grandes
empresas que exibiram cases com exemplos de como o crowdsourcing pode
ter diferentes aplicações e gerar diversos modelos de negócio. A
primeira companhia foi a IBM, representada por Irene Greif, diretora do
Centro para Software Social e chefe do Grupo Colaborativo de Experiência
do Usuário (CUE). Greif contou sobre “como utilizamos a tecnologia para
engajar as pessoas”, a partir dos chamados “Jams”, eventos online que
reúnem grupos específicos de pessoas para que elas discutam determinados
tópicos - o maior deles reuniu 150 mil colaboradores da empresa em 104
países e 67 outras companhias. Irene explicou que, dentro de uma
política de redução de gastos, a empresa, na busca por inovação,
descobriu que poderia fazer consultoria de produtos com as pessoas, ao
gerar pequenos Jams. “Um projeto poderia ser dividido em pequenos
pedaços para que as pessoas pudessem trabalhar sem sequer se conhecerem,
e trazerem as melhores soluções para a companhia, fazer soluções mais
inteligentes e melhores”, afirmou.
Democratizar da inovação
Para Pia Erkinheimo, Head de Crowdsourcing, equipe de inovação da Nokia, é preciso “ouvir à sabedoria ‘nas’ massas”, e democratizar a inovação. Erkinheimo destacou que o amadorismo tem crescido muito e que não importa de onde uma ideia tenha se originado, desde que seja boa, acrescentando que não existem usuários ou desenvolvedores absolutamente puros, um indivíduo totalmente heterogêneo. A companhia finlandesa possui dois projetos de destaque na área de crowdsourcing: o IdeasProject, uma comunidade online voltada para qualquer pessoa que queira desenvolver uma ideia a partir os meios oferecidos pela empresa, utilizando “a energia da multidão para o campo de testes", e o App Campus, voltado para desenvolvedores, no qual a empresa, em parceria com a Microsoft, quer “investir 18 milhões de euros no desenvolvimento de aplicativos móveis”, numa tentativa de se aproximar os desenvolvedores do público em geral.
A parte brasileira do debate foi representada por Denilson Novelli,
gerente de E-business da Tecnisa, e Luis Eduardo Serafim, head de
Marketing Corporativo da 3M do Brasil. Novelli explanou sobre um projeto
realizado em 2009 em comunidades no Orkut, no qual a construtora
procurou saber entre os usuários interessados em gerontologia (que
estudam a velhice, principalmente voltado para acessibilidade de prédios
e construções) quais eram as maiores reivindicações da chamada
“arquitetura inclusiva”, adaptações feitas nos empreendimentos voltadas
ao público de terceira idade ou com mobilidade reduzida. Por meio dessa
iniciativa, foram feitas cerca de 200 sugestões em 30 dias, que
fomentaram à construtora ideias como corrimões em piscinas, fechaduras
das portas acima das maçanetas, tomadas mais altas, entre outros. Hoje a
empresa possui o portal Tecnisa Ideias, que funciona como um espaço colaborativo para que os usuários enviando e votando em projetos de inovação.
Por fim, Luis Serafim contou sobre a experiência de crowdsourcing
dentro e fora da 3M, explicando sobre o ambiente de colaboração da
companhia, no qual os funcionários podem “acessar tecnologias da empresa
para criarem seus próprios projetos. Os conhecimentos gerados são da
empresa, e não do indivíduo ou de um departamento”, explicou Serafim.
Para exemplificar esse conceito, executivo contou a história de Art Fry,
um químico da 3M que utilizou uma tecnologia de adesivos removíveis
criada por seu colega, Spencer Silver, para inventar o Post-It famoso
bloco de anotações reposicionável. Luis Serafim também contou sobre a
rede social chamada The Spark, que reúne em um ambiente colaborativo os 7
mil cientistas da empresa - uma maneira de “entender e enxergar onde
estão as oportunidades” concluiu.
Ao final da conversa, o moderador do debate, Shaun Abrahamson
provocou os palestrantes ao perguntar qual a parte mais interessante do
modelo de crowdsourcing. “É mudar uma organização ao mudar a maneira
como o dinheiro é gasto. Inovação é importante, mas queremos que o
trabalho fique pronto” apontou Irene. “Talvez a forma como [o
crowdsourcing] muda as estruturas de trabalho. A parte mais interessante
é como ele muda o trabalho e a maneira como trabalhamos” respondeu Pia
Erkinheimo, da Nokia. Serafim, por sua vez, seguiu a mesma linha de
pensamento da executiva da IBM, e arrematou: “não adianta muito crowded e
pouco sourcing. É preciso entender o público, e encontrar alguém que
traga soluções”.
Via: IDG Now
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